RELATO DE UMA AGRESSAO
O menino...
O motivo? Por mais que puxe na minha memória, não consigo lembrar, ou talvez tenha o bloqueado; mas lembro-me bem que estava próxima à hora de ir ao colégio, pois já estava com o uniforme. Tudo o que consigo lembrar, foi que em segundos (minha agressora), se apoderou de mim, me segurando pelo braço, e já me deu dois tapas no rosto, pasmo e já em pânico a pedi que não me batesse. Todavia não atendido e colocado em baixo do seu joelho; entendi não ter mais como fugir, ela ordenou a minha irmã que fosse buscar uma mangueira, (dessas de ligação entre o fogão e o botijão de gás), e nesse meio tempo minha agressão começou me golpear com um pedaço de lenha (madeira), grossa. Com a negativa de minha irmã, alegando não ter encontrado a mangueira; ela ficou ainda mais furiosa e também bateu no rosto da menina que tentava em vão me proteger, (fingindo não ter encontrado o artefato que seria usado para me causar dor). Por fim o objeto do meu suplicio foi encontrado, e sem pensar nas conseqüências que poderia causar a mim, uma criança, minha agressora começou a me golpear com todas as suas forças, e com uma gana fora do comum. A dor... Dela lembro bem, a cada vez que a mangueira era golpeada em meu corpo, franzino, latejava e queimava de forma descomunal, e ela, a mangueira, chupava a pele, me causando dores horríveis, como conseqüência isso me rendeu escoriações horríveis, muitas manchas rochas e por fim um tão temido banho de salmoura, ( composto de água, sal ao extremo e vinagre; que por nós era tão temido) o que aconteceu na minha volta do colégio. A dor não era somente física, mas também psicológica por tentar entender o porquê; de ela minha agressora, mesmo vendo o que acontecia com meu pequeno corpo, continuava a golpear, e com todas as suas forças. 4 A lembrança mais lamentável e dolorosa; durante a minha agressão, é que podia ver nos olhos da minha agressora, uma raiva descomunal; raiva essa que não entendia o porquê, e por mais que tentasse me livrar das suas mãos mais ela tinha raiva. Sabe; os golpes da mangueira não pegavam em uma só parte de meu corpo repito e reitero de criança, nas pernas, nas costas, nas nádegas, essas ficaram muito machucadas, que me renderam dores horríveis por dias a fio. Tentei de todas as formas, em momentos de pânico me vali de todos os argumentos, na tentativa de persuadir minha agressora a parar, lembro-me bem que pedia, por amor de Deus, na esperança de finalizar meu suplicio; tentei chamá la de mãezinha, cheguei a dizer a ela que a amava; isso me vem a lembrança de forma clara; o que era verdade mesmo, e apesar; tinha por ela amor. Mas ela disse que agora não adiantava chamá-la de mãezinha, em muitas vezes jurava que não faria mais, seja lá o que tenha feito, mas eram vãs as minhas tentativas, e o que foi em minutos, para mim foi como que durasse horas a fio. Nunca vou esquecer que em certo momento, imagino eu de raiva, ela disse que iria me matar, para que eu a não incomodasse mais, nesse momento, não sei de onde tirei forças, e pedi que ela me matasse, na realidade implorei, para que ela fizesse isso pelo amor de Deus. Lamento lembrar que lá no fundo queria realmente morrer era um sentimento que nunca ficou guardado, e momentâneo porque na realidade tudo o que queria, era que a dor parasse. Meu desespero momentâneo era tanto, que pensei que em ela me matando, não mais teria dores, e implorei que ela me matasse, não sei como e de onde arrumei forças, mas a desafiei para que minha vida fosse dada por encerrada. Naquele instante, realmente queria morrer... Foi quando então ela colocou a mão em meu pescoço, por mais incrível que possa parecer, pensei que seria meu fim, mas, não estava com medo, momentaneamente estava em paz; imaginei que, meu sofrimento iria acabar; a dor iria passar, mas não sei por que, ela desistiu. Hoje, enquanto lembro, sinto em minha alma que aflora enquanto relato; uma dor horrível, os olhos dela demonstravam toda a raiva que sentia, mas ela não tinha motivos para ter raiva de mim, e ela não tinha o direito de ter raiva, nem de mim, ou de meus irmãos. 5 Por fim e após vários golpes de mangueira, e muitas tapas no meu rosto, não lembro como e nem porque me soltei ou fui liberado, fugi como que um animal liberto de um cativeiro; para lamentar a dor em meu corpo, que latejava, queimava mesmo; (dor descomunal que nem em palavras ou em escritos se consegue explicar). Depois da agressão que fui vitimado; para meu maior suplicio, ainda tive que ir ao colégio; com muita dificuldade confesso não me lembro quem estava comigo; mas reclamava muito quase que sem forças para andar, pois meu corpo estava todo dolorido, e cada passo que dava meu pequeno corpo doía, e não podia falar nada a ninguém, no colégio por medo, não de ser exposto, não a mim, mas expor a minha agressora, a uma repreensão dos meus professores. Meu corpo, magro ao extremo, queimava de tanta dor, era uma dor terrível minhas pernas queimavam a pessoa que comigo estava e que hoje não consigo me lembrar quem era me ajudou levando minha pasta para que pudesse me recompor. Aquele dia, no colégio, não podia sentar direito na minha carteira, a dor custou a passar com o tempo e por fim, aos poucos fui esquecendo a dor, mas teria que voltar para casa, essa certeza me horrorizava. E por fim como se não bastasse à agressão ainda enfrentei o temido banho de salmoura em uma bacia nu; e em todos os momentos que o liquido salgado era jogado em meu franzino corpo doía...
E muito...
O escritor...
Nenhuma pessoa tem o direito de ter raiva de uma criança, esse sentimento não pode existir entre pais e filhos, a raiva é uma porta escancarada para que Maldição entre na família e a destrua por completo. Tudo o que uma criança precisa e tem direito a receber é amor, proteção e o mínimo de respeito, a sua fragilidade infantil; essa, que não a ajuda a defender-se de seus covardes agressores. As lembranças desse ato são lamentáveis, mas necessárias, na esperança de que o relato do menino venha num futuro evitar que mais crianças sejam agredidas não apenas fisicamente, mas também psicologicamente em maldiçoes a elas proferidas; não poderia deixar de escrever sobre elas...

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